terça-feira, 30 de junho de 2009

paqueras

namoro à primeira, segunda e terceira vista...

Loucura no país dos ditados

ilustração: Miró
Às vezes
prefiro omelete a Hamlet
E vou nessa misturando tudo
porque quem não tem pão
caça com ovo
e quem cai na chuva é pra se sujar.

Às vezes
roupa suja é melhor que limpa
e nem sempre se lava em casa
porque o legal é
dois pássaros voando
e nenhum na mão.

Às vezes
água dura em pedra mole
tanto bate que vira lamaçal
e cão que late muito
é um chato de quatro patas.

Às vezes
em terra de sapo
é que a vaca se atola
lá no brejo.
E em terra de cego
o colorido é por dentro.

Às vezes
acordo todo trocado
virado pelo direito
e com o avesso estampado.
E que ninguém me conserte
porque quero mesmo
é um bom concerto.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Rabiscos


Às vezes a cabeça da gente é igual pote vazio que a gente coloca o ouvido na boca e escuta só zumbido estranho... zumzumzumzum! Quando me sinto assim, não tem outra coisa a fazer, porque as ideias fugiram todas do meu alçapão. E cabeça oca, vazia de ideias, é coisa que deixa a gente feito louco. Nessas horas o melhor que faço é rabiscar bobagens bem bobagentas, como uma criança bem pequena pegando no lápis e desenhando um mundo que é só dela.

sábado, 13 de junho de 2009

Revolta dos dedos


Dedo-Mindinho chegou
E foi logo dizendo:
"Ninguém gosta de mim
estão sempre me escondendo".

O Seu-Vizinho ouviu
E foi respondendo logo:
"Pior sou eu, que apareço
apenas como encosto".

Maior-de-Todos escutou
E disse, todo imponente:
"Como vocês reclamam
nunca nunca estão contentes!"

Fura-Bolo opinou:
"Pois vivo muito infeliz
me enchendo de bolos e doces
Vocês não querem um triz?!"

Cata-Piolho berrou:
"Triste de mim que vivo
somente matando inseto
apenas pra isso sirvo!"

A palma da mão falou:
"Queridos, mudem a cara
e vejam sua importância
vocês são coisinhas raras."

Quem é que segura o menino
quando ele pula na esteira?
Quem é que sustenta o peso
Se ele planta bananeira?

Quem é que dá o abraço
na mãe do doce menino?
Quem é que pega o lápis
e sai pintando o destino?

Os dedos mudos ficaram
na luva se recolheram
Ninguém pensou em mudar
Será que eles perceberam?

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Impressões meteorológicas

O trabalho da chuva é chover
O ofício do vento é ventar.

O emprego da neve é nevar
E o papel do trovão? trovejar.

Se a chuva não chove,
Chuva não existe.

Se o vento não venta,
Não existe vento.

Se o trovão não troveja,
Existe trovão?

E o mais estranho
é que os fenômenos
só são ações do seu dono.

Eu não posso chover,
Tu não podes ventar,
nós não temos como trovejar.

Então...
Chove, chuva!
Venta, vento!
Troveja, trovão!

domingo, 7 de junho de 2009

O Deus da mãe do menino


Uma coisa intrigava o menino. Toda vez que a mãe o levava até a igreja, ele fitava aquele homem quase nu estendido numa cruz, com uma cara de dor. Os grandes, todos de joelhos, diante daquele homem sofrendo.
- Ajoelha, filho... – diz a mãe, baixinho.
- Por que, mãe?
- Para adorar Nosso Senhor, pregado na cruz...
- Por que ele tem que ficar pregado aí? - pergunta a inocente criança.
- Para nos salvar, filho... – diz a mãe, num sussurro, para não incomodar a oração dos outros.
- Nos salvar, mãe? - repete o garoto.
- Sim, ele morreu pra que a gente pudesse viver. Mas ele é Deus, viu...
- E Deus morre?
- Ele morreu, mas depois ficou vivo novamente.
- Mas todo Deus não é imorrível, mãe? Tipo superman, homem-aranha, ex-man...
A mãe ria baixinho.
- Esse é um Deus especial, filho. Porque é verdadeiro.
- E os outros são falsos?
- Bem, ahan...Foram inventados...
O menino não ficou convencido, mas ajoelhou. Seus olhos miraram os olhos quase fechados daquele homem na cruz. Não era um super-herói que estava ali, definitivamente. Era o Deus da mãe do menino. Um Deus fraquinho... O menino se pôs a pensar alto.
- Mãe...
- Que foi?
- Se esse Deus fosse o Superman, ele voava bem forte em volta da Terra, e não deixava ser preso. E se fosse o Homem-aranha, ia jogar os bandidos na teia e saía na boa. Se ele fosse um ex-man, congelava ou trucidava com fogo os inimigos...
- Mas esse Deus tinha que morrer pra provar ao mundo que era Deus.
- E ele não podia provar ficando vivinho? Igual os super-heróis?
A mãe ficou bestificada com aquela pergunta.
- Jesus, esse menino diz cada coisa...

Velhas Lembranças

Numa casa velha, de alpendre torto e jardim cheio de gerânios, girassóis e helicônias, um casal de velhos remói, numa prosa bem mastigada, velhas lembranças. Enquanto a velha fala, o velho resmunga, mais lento que ela.
- Meu velho, lembra daqueles tempos que havia terreiro e rodas de criança na ciranda da vida?
- Eita! Hum, hum... Cirandeira...
- Lembra daqueles tempos que somente a luz da lua iluminava nossas noites?
- hum, se lembro...Luarzão...
- Lembra daqueles tempos que as conversas se prolongavam madrugada a dentro sobre bichos, visagens, heróis cangaceiros, profecias sertanejas?
- Virge do céu, demais!
- Lembra daqueles tempos que o fogo faiscava na frente de nossa casa e nós, em volta do fogo, cantávamos ingênuas cantigas, cheias de amor à existência?
- Ah! Como se fosse hoje...
- Lembra daqueles tempos em que nossos amados filhos nos pediam santa benção e nos seguiam felizes até a casa de oração?
- E dá pra esquecer?
- Lembra daqueles tempos em que o céu era mais azul, as estrelas brilhavam mais intensamente, os rios tinham águas mais límpidas e as matas eram mais verdes?
- Eh! Minha velha, o único presente que deixaremos aos nossos filhos, e aos filhos dos filhos dos nossos filhos, serão as lembranças.
- Será que eles hão de querer velhas lembranças, velho?

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Contágio

Um pingo de chuva
gelado como ele só
caiu no meu nariz
era sereno
e sereno eu fiquei.

Um raio de sol
brilhante como ele só
pousou no meu nariz
era caloroso
e caloroso eu fiquei.

Uma folha verde
verdinha como ela só
caiu no meu nariz.
Era singela
e singelo eu fiquei.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Nada é poesia; tudo é poesia.


- poesia tu me amas?
- aferventa minhas palavras
- poesia tu me tramas?
- alimenta minhas palavras
- poesia tu me dramas?
- adormenta minhas palavras
(Augusto Cassas, Salmo Apascentador, Deus Mix, Imago)

De repente olho pro piso sintecado, procurando tornar meu olhar disforme, para o germinar do poema. E quando percebo já estou ruminando versos. As linhas marrons da madeira preenchem o chão do quarto. Madeira morta e tão útil. Que graça há em ser útil depois de morto? Ah! Há sim! Órgãos doados, pulsando, vivos, num outro corpo. E agora percebo que a poesia entrou no hospital, lado a lado com a morte.
Tudo serve para a poesia; nada serve para a poesia. Os chinelos no canto do quarto, velhos, sujos, à espera dos meus pés, me inspiram. Como o amigo cão, parecem implorar por um passeio. Se pudessem, andariam sozinhos. Talvez seguissem por outros caminhos, veredas que eu não teria jamais coragem de percorrer. No entanto, submissos, jazem imóveis, à minha espera, no canto. O silêncio dos meus calçados toca profundamente minha alma.
Tudo cabe numa poesia; nada cabe na poesia. Esse quarto é tão grande, tão grande, e os papéis o tomam, o invadem, numa desordem que retrata muito bem meu cotidiano e reflete meu interior. Onde está aquela anotação tão importante que fiz a pouco? Jamais encontrarei o endereço daquele sebo anotado num pedaço pequeno de papel. Janelas se abrem e os papéis ficam eufóricos, cheios de malícia. Querem flutuar do oitavo andar e me deixar envergonhado e aflito.
Qual a matéria da poesia mesmo? O tudo e o nada; o tudo no nada.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

QUE EU SEJA...


Que eu seja ponte. Uma ponte feita do material mais firme para suportar o peso da vida. Uma ponte serena a serviço da unidade. Uma ponte ligando caminhos e desfazendo abismos. Uma ponte que, na sua missão de ser caminho sobre a água, age silenciosamente, ensinando o valor do silêncio. Uma ponte que avisa ao caminheiro que as águas sob si também merecem respeito.
Que eu seja água. Água transparente a ensinar o valor da integridade. Água mansa e calma, sem pressa, percorrendo o curso, sem ânsia de chegar ao oceano. Água revolta também, para mostrar aos barcos que em mim navegam o preço da conquista. Água benfazeja, alimentando de esperança outras vidas. Água generosa, a refletir duplamente céu e terra, mostrando que meu corpo é a morada de outros mundos.
Que eu seja um barco. Um barco humilde, porém firme, com vela sempre hasteada para receber os ventos imprevisíveis. Um barco que se deixa singrar na calmaria, sabendo esperar; e que não se abala nas tormentas.

Que eu seja, enfim!

sábado, 9 de maio de 2009

Oração para quem ainda crê no homem


Da violência cotidiana, livrai-nos, Senhor. De toda violência camuflada, que vem em conta-gotas, livrai-nos, Senhor. Da cultura da violência instituída, ingerida, vomitada, livrai-nos, Senhor.
Do fascínio que o mal promove, afastai-nos, Senhor. Do desejo amargo de vingança, afastai-nos, Senhor. Da droga da omissão, que é a pior droga, afastai-nos, Senhor.
Da estética da crueldade, libertai-nos, Senhor. Da estética da violência, libertai-nos, Senhor. Da estética da barbárie, libertai-nos, Senhor. Do bélico tranformado em belo, libertai-nos, Senhor.
Do pânico que gera prisão, curai-nos, Senhor. Da dor gerada na opressão, curai-nos, Senhor. Do rancor que não pode ser perdão, curai-nos, Senhor.
Porque não somos mais capazes de acreditar no amor, piedade, Senhor. Porque nos alimentamos de vingança, piedade, Senhor. Porque não sabemos promover Justiça, piedade, Senhor.
E se por acaso não mais acreditarmos em qualquer vestígio da divindade porque não mais acreditamos na humanidade, ainda assim, ajuda-nos, Senhor!

sexta-feira, 1 de maio de 2009

PASTORADOR DE PALAVRAS

(Dedico este texto ao poeta Manoel de Barros)

Quando criança, o menino gostava mais era de brincar com palavras soltas. Ele vivia fabricando ventos no ouvido imaginário das coisas. Adorava quebrar palavras e enterrá-las para ver ser nascia um pé de palavras. Nas brincadeiras, o menino queria que elas dissessem a ele de que modo deveriam caber num papel branquinho.
A mãe do garoto o mandava botar sentido nos porcos, e ele ficava imaginando como seria difícil educar os suínos. É que botar sentido pra ele não significava olhar os bichos ou pastorá-los. As palavras eram tagarelas no seu pensamento, mas no papel jaziam numa mudez irritante. Também, o pensamento dele era bem colorido, dava até pra sentir o cheiro do pensamento e o gosto das imagens; mas o papel era branco demais, ofuscava os olhos dele e afugentava nomes, verbos, qualidades...
Então, ele falava, falava...depois cantava, cantaaaava...e pensava. Como esse garoto pensava!!! Não sabia, mas estava cultivando poemas na terra fértil da memória. Hoje, o menino está crescido. E o que escreve são as vozes das palavras arcaicas do tempo de sua infância. Muitas delas entraram nos seus ouvidos, vindas da sua mãe e dos outros velhos, se apoderaram da cabecinha dele e cultivaram pacientemente no seu ego o canteiro das suas ideias.
Quando está sozinho, o homem que um dia foi menino nunca está sozinho. Elas, as palavras, surgem de algum canto escondidinho e começam a tagarelar, e ele relembra a primeira profissão: pastor, pastorador de palavras.

Menino perguntadeiro




















- Será que o olho da rua vê tudo o que passa nela?
- Se a terra é redonda, por que procuramos os quatro cantos do mundo?
- O braço do rio disputa quebra de braço com quem?
- A boca da noite tem dentes ou é banguela?
- Quanto calça o pé-de-vento?
- O dedo de prosa usa anel?
- A asa da xícara voa?
- Por que o bule tem bico e não é pássaro?
- A batata da perna é doce?
- As maçãs do rosto amadurecem?
- Por que a porca do parafuso não dá cria?
- A flor da pele desabrocha?
- Cadê os pais da menina dos olhos?
- As pernas da mesa não andam, por quê?