quinta-feira, 5 de abril de 2012

semana nada santa

Para mim, hoje não é só lava-pés; é também escalda-pés. Meu coelhinho de páscoa está impresso no papel higiênico e tem até cheirinho. Troquei o bacalhau pela sardinha, mais em conta, menos sal. Já estou pensando na minha crucificação, vivendo numa cidade onde preços só disparam. As calopsitas não param de roer os tacos do piso e de gritar feito loucas. E nem falam. Tudo está meio desconexo, nem côncavo, nem convexo, frouxo frouxo, sem costura alguma. Amanhã Cristo vai morrer pela 2012 vez, e o mundo nada de tomar vergonha na cara. No sábado de aleluia, o Judas perde a cabeça e as botas. Quem quiser se livrar do mal, deverá rir um riso diabólico, riso espanta-demo. No domingo, não sei, mas é difícil haver homem ressurecto.

domingo, 1 de abril de 2012

mês difícil

Gosto muito deste abril que começa tão mentiroso (1), depois se entrega ao teatro da Paixão (6,7, 8), tão dolorido, tão humano e tão divino; em seguida, celebra a traição dos inconfidentes (21) e o descobrimento (22) de algo que nunca esteve coberto, o Brasil, culminando no suicídio de quem não devia ter nascido: Adolf Hitler (30). Esse mês é forte demais, humano demais, barroco demais, meu pai!

verdade X mentira

"A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer". Essa máxima de Quintana cria um paradoxo interessante. A mentira é uma verdade. As mentiras que circulam hoje, no dia internacional da mentira, bem podiam tornar-se realidade: punidos todos os corruptos, cura do câncer, Aids e todas as doenças crônicas, piso salarial do professores será igual ao de um deputado, não há mais fome nem sede no mundo, o clima estará estável nos próximos anos, etc., etc. A mentira deste dia já é um anseio de verdade, uma semente, desejo mais desejoso. Mentira, omissão, ocultação de verdade: dá no mesmo? A mentira está sempre grávida da verdade, prenhe. Ai ai ai. Tão bom falar qualquer coisa só pra encher uma postagem, igual compostagem.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

luzeiros

De repente, comecei a catar estrelas na noite embaçada do Rio. De repente, esse desejo premente de rever o céu constelado de outrora, em outro lugar, quando não havia luzes na terra ofuscando os luzeiros celestes. E me pego, quase sempre, traçando mapas no céu, com as estrelas que furam a luminosidade artifical da cidade. arredias e insistentes. Por iso gosto delas. Meu traçado é auxiliado por um programa que tenho no meu tablete. Eu o aponto para o céu, e ele me mostra os astros. E eu viajo, observando planetas, nebulosas, estrelas... No momento, estou fascinado pela constelação de Órion, que parece uma borboleta, com as Três Marias ao centro. Sou doido no meu devaneio?

domingo, 26 de fevereiro de 2012

inconsciente periférico



dei agora para recolher velhos teclados de computadores nos lixos.
foi quase como uma visão que isso começou. andando pelas ruas do centro, de repente, estanquei-me diante de uma dúzia de teclados na calçada. uns pretos, outros brancos. havia um colorido até. antes, eu não reparara direito na poeticidade emanada desse periférico. ele é uma espécie de ponte que nos liga ao mais recôndito da máquina. ele é o tradutor da lingua estranha do computador, que , no fundo, somente computa, processa cálculos, matematicamente vai transformando nossas ideias. o teclado no salva do cálculo. nos introduz, leigos, no interior da máquina. nos salva de nossa ignorância.
pois comecei a juntar teclados velhos.
em casa, eu os abro, separo as folhas transparentes e as teclas; separo tudo e guardo em potes, como se guardasse um grande tesouro, uma botija desenterrada. inicialmente queria fazer poemas com isso. até já tracei vários esboços. estou apenas esperando que as teclas mesmas falem por si, me guiando para o poema que elas querem gerar. já experimentei jogá-los sobre as molduras, feito búzios; o resultado me assustou, me deixando no espanto, um assombro que talvez seja o medo de mexer com o indizível. passei a traduzir tudo como recados não sei de quem, vindos não sei de onde.
meu projeto vai se chamar "inconsciente periférico". acho que é isso. ou mesmo "teclário".
tem gente que mora no tempo das delicadezas; eu moro no tempo das esperas.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

quando quiser e não souber falar, quando as palavras se perderem no labiritno do seu ser, quando não houver sequer a graça de esboçar um uivo gutural, ermo de sentido... 
aí mesmo é que o teu silêncio será fecundo, como semente que esperou no escuro da terra o momento propício para a explosão do gênesis. aí será a hora de deixar que o silêncio se cumpra soberanamente. é preciso mesmo ter que falar? é necessário encher o mundo de palavras vazias, qual tronco oco de árvore morta? o vento em seu barulho, brisa ou redemunho, diz mais.
por que a vontade de dizer coisas, e bradar desimportâncias? por que essa fremente urgência pela palavra reconfortante, se tudo é fugidio, e as palavras, mascaradas habitantes da mais confusa babel? por que o desejo de dizer o que não interessa a ninguém, nem a ti? por que tantos porquês? palavras, quase sempre, não suportam a linguagem da alma. 
o mundo e os homens precisam é do mergulho no cardume de silêncios.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Fantasia pelo caminho

As fantasias ficaram pelo caminho, aos restos. 
Penas, lantejoulas, serpentinas, festões... no caminho de volta para casa, a alegria encorajada pela máscara. Tão fácil ser feliz sob plumas e paetês! Mas agora é depois. Depois do carnaval. E o mundo voltou a ser normal. Ou quase, porque normalidade e humanidade têm naturezas que não se mesclam. 
O mundo voltou ao riso cotidiano, sem deboche, sem crer que o riso sem motivo salva o mundo. Debochamos de Rico e do Pobre, da Luz e da Treva, de Deus e do Diabo. Debochamos de nossas tolices, e vergonhas, e desfaçatez. Debochamos da Vida e da Morte. Quero ver rir agora, no transcorrer do ano, quando o corpo vai obrigado ao trabalho, e o humano se subordina ao chefe, ao tempo, ao mesmo.
Está decidido. Não quero a alegria que me consome o corpo. Quero a alegria que me consome a alma.  Depois da alegria desmedida, quero a "perfeita alegria" pro resto do ano, que não é pouca coisa.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

crônica sobre autor desconhecido


odeio autor desconhecido. odeio mesmo. não aquele desconhecido porque a mídia não o viu, ou não quer vê-lo. não é esse desconhecido que é objeto da minha crônica ferina e ferida. odeio o desconhecido que tenta manter-se desconhecido a qualquer custo. que não se compromete com o que escreve, seja poesia barata, seja crônica infeliz de autoajuda, seja o diabo. odeio esse autor que, para ter um texto lido pela grande massa incapaz de pesquisar origens, usa criminosamente o nome de outro autor famoso. e o texto ganha dimensões, se agiganta, se desdobra e passa a frequentar, inclusive escolas, num desserviço ao pensamento reflexivo.

odeio esse imbecil que não se apresenta com autoridade. que promove a deturpação da literatura, ainda que eu não concorde com os termos “alta” e “baixa” literatura. estou falando de valores ou contra-valores disseminados num ingênuo texto anônimo que recebe a patente de autores consagrados. Infelizmente poucos leitores têm a competência para perceber que há alho de muito errado no estilo desses textos, não combinando absolutamente com sua autoria. de repente, vejo uma Clarice Lispector dando conselhos chulos para os amantes, apresentando-se como uma alma caridosa, religiosa até, coisa que nada tem a ver com a grandeza dela. do mesmo modo, vejo Shakespeare falando como ser feliz, como amar e transcender, como ser piegas. ainda vejo um Drummond tão meloso, dando conselhos moralizantes para a felicidade geral da nação neoleitora (danação). vejo Bob Marley falando de vida como se fora um adolescente. vejo, igualmente, um Mário Quintana quase como um pregador das verdades celestes dizendo o que devemos ou não fazer para ganhar a vida eterna. (para continuar lendo, clique no link seguinte)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Presentes quase impossíveis

- Mãe, se eu te pedir uma coisa, cê me dá?
- Claro, filho, qualquer coisa.
- Qualquer TUDO mesmo?
- Bem...qualquer tudo não é coisa demais, querido?
- Então não pode me dar qualquer coisa...
- Posso... qualquer coisa que esteja ao alcance de uma mãe.
- Tipo assim... cê não pode me dar a lua...
- Posso sim, olha pela janela, a lua tá lá longe, mas eu vejo ela dentro dos seus olhos. Então já é sua.
- Só minha?
- Só sua. Esta com você já. Agora voce é meu menino dos olhos de lua.
- Mesmo, mãe?
- Mesmo mesmo. E tem mais, são duas luas dentro de você. Uma para cada olho.
- Uau! E se eu te pedir mais uma coisa, cê me dá?
- Pede, filho!
- O mar... se eu te pedir o mar...
- Dou sim, espera aí que a mãe já volta com ele -  vai até a cozinha, pega uma pitada de sal joga num copo de água e volta para o quarto trazendo também uma concha marinha.
- Pronto, prove está água. Se você sentir o gosto do sal é porque o mar cabe dentro de você.
- Senti, mãe. Mas não vi o mar dentro de mim.
- Todo sal é água pronta para ser mar outra vez, amor. Agora pegue essa concha e coloque no ouvido...
- Tou ouvindo as ondas, mãe!
- Então significa que o mar está dentro de você.
- Bacana.Sou um menino-mar.
- E agora é hora de dormir. Amanhã te  dou o mundo, se você quiser.
- Não quero mais nada, mãe... Só uma coisa.
- O quê?
- Um beijo da melhor mãe do mundo.
A mãe beijou o filho com ternura, beijo quente com sabor de super-mãe, apagou a luz e o menino dormiu.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

gaiola branca

O que faço com essa página em branco? Me diz. O que faço com o nada? Quer, por favor, me dizer? O que faço com o que inexiste e é todo grande aqui, neste espaço, me encarando sem olho, vociferando contra mim sem boca? O que faço com a não-matéria que, por não existir, deveria ocupar espaço nenhum, e aqui me cerca? Esse branco de página, qual branco da vida, é lume crepitando e quer me queimar. Se se queimasse sozinho, eu poderia tomar um resto de carvão para tentar o desenho, rabisco, mais fácil do que palavrar. Esses monstros não suportam páginas em branco. Gaiolas brancas. Eles nunca terão a mansidão porque habitam a terra do... não sei que terra habitam essas pestes. Então me calo e peço que te cales. Te envio a gaiola vazia, a página em branco, para que tu leias o nada que é meu tudo. É o melhor que posso fazer.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

vento



Porque tudo é trânsito e passagem.
Não devo me apegar a nada que não seja pés e asas e sonho. E o que não se vê tem o peso brutal de toneladas. O que não visto, que nos rodeia, o oxigênio incolor porque tem todas as cores e cheiros e sabores reunidos na essência que pura doação.
Se assim não fosse , se o visível, já queríamos prendê-lo, dividi-lo em pedaços, compartimentá-lo igual latas de conserva das prateleiras dos supermercados.
Mas tudo não vai ser mais. Tudo será o não-ser e é para isso que caminhamos, todos, bichos, homens, plantas, pedras. Escuto o barulho do vento. Sinto seu sopro no rosto. Escuto e sinto, mas não o abraço enquanto sigo. Ele é que me abraça.
Então, como posso não perceber que esse abraço é que me mantém?

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O É

O que foi, não é. O que está, não é. O que virá, (ainda) não é. O que é a categoria do "é"? Que permanência faz "é" imobilizar o tempo e abalar as estruturas do espaço? 
O é não é jamais. Ele só é enquanto promessa, por isso mesmo, insuportável areia fugidia; ruidosa ventania que não se deixa tocar e devasta a todos; água que só se solidifica para camuflar seu estado transitório. 
O que foi, não é, porque nunca foi.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Melhor do que escrever e publicar, é ver as leituras e releituras do nosso livro. Aqui um cartaz feito por Jackson, 7a série, aluno da professora Eliane, de Santa Catarina. A história de Dom Sebastião indo longe. Axé! Parabéns à professora que estimula a leitura dos seus alunos com essa atividade de confecção de cartazes. Veja no blog dela.

Ilhas cariocas

Início do ano. Que a beleza do Rio contineu nos revigorando, dando-nos conforto, enchendo-nos de luz, cor e formas.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O primeiro natal

O Menino-Deus, tão indefeso ali na manjedoura, ri para o mundo e aponta com seu dedinho para a estrela. Riso de criança celeste, dedo de criança curiosa apontando luz. As ovelhas trazem lã para Maria tecer uma fralda quentinha. O burro bafeja a palha para fazer calor. Uma família de pastores desce a montanha e traz comida para o casal faminto: pão, leite e mel. O cachorrinho-pastor pula aos pés da criança divina e brinca com seu próprio rabo. A criança divina ri. José e Maria riem. Os pastores riem. O primeiro natal acontece entre luzes, preces e risos.

domingo, 18 de dezembro de 2011

nuvens do advento

"Que as nuvens se abram e chova a justiça. E o orvalho faça nascer a flor." (Isaías)

 

É assim, um céu grávido de nuvens escuras, que os homens esperamos o desabar do novo sobre nossas cabeças. O novo seja vento a limpar a sujeira do caminho, seja água germinando o sêmen da terra, seja planta perfurando o lodo e se projetando para a luz. Que essas nuvens, que eclipsam o sol, deixando apenas pontos dourados perfurarem sua densa textura, nos presenteiem com um novo tempo, onde a justiça e a igualdade sejam nosso alimento; o cordeiro e o lobo sejam amigos e pastem juntos, como sonhou o profeta.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Momento

No momento não posso. Mas é só neste momento. Quem sabe depois. Quem sabe amanhã, assim que os primeiros raios do sol espalharem fios de ouro pelas bordas das montanhas. Ou quando a estrela da tarde despontar diáfana, feito água-viva. Ou quando a noite trouxer o manto da brisa, amorosamente gélida. Mas no momento não posso. No momento só posso estar em contemplação, escondido na minha própria fractal, persuadido pelas vozes que me habitam. Não sou silêncio. E o vazio não me vem como tsunami porque estou cheio. Nada me atinge. Nem a força de mil sóis. Nem as chamas do Etna. Nem uma nova Big Bang. Nem a notícia de que os cientistas encurralaram a "partícula de Deus". Nada me dilacera a alma. Este momento é só meu.

domingo, 4 de dezembro de 2011

O vou

Quando as palavras vão embora, quando o vento leva a chuva refrescante, quando a noite esconde o sol, quando as nuvens eclipsam a lua, quando as montanhas escondem o horizonte, quando o mar engole o barco, quando o silêncio leva embora os pensamentos...
É aí a hora de ver diferente, de enxergar o profundo. É nesse instante que sondamos outras nuances e os rios se apresentam como caminho, e o caminho de terra batida nos diz muitas coisas. Que o perigo é toda parte, enquanto respirarmos, o perigo grande existe, o perigo da existência.
Mas é ele, o perigo grande, que nos projeta ao vou. O vou é muito mais que o voo. O vou não tem ambiência, não tem história, não tem sequer cara e corpo.
Ele é o imenso desejo.