sábado, 11 de maio de 2013

outras venturas

Felizes os que não sofrem. Feliz os que não morrem. Felizes os que não se deixam enganar. Felizes os que não se humilham. Felizes os que não compactuam com a máscara da humildade. Felizes os que gargalham. Felizes os que estão com a barriga cheia. Felizes os ricos... de espírito. Felizes os que não perseguem nem são perseguidos. Quem disse que pra ganhar o céu é preciso viver no inferno?

sábado, 27 de abril de 2013

espelho

"Agora nos vemos como num espelho, mas então veremos face a face". Esse texto anda comigo há muito tempo. Como num espelho. Uma imagem de mim, que sou outro, o contrário. E por mais que eu mire, só vejo o que não sou. E por mais que eu contemple, só vejo o que nunca serei. Não sou eu que está lá; é um outro que não existe, a não ser como uma imagem. Face a face. Então, não serão dois rostos na suprema miragem? Não, é uma face ao contrário, desfocada, num lugar que não existe, o outro lado, uma impressão do aqui, mas está lá dentro do espelho. E cisma em ser mais forte do que eu. "Mas então veremos face a face".

sexta-feira, 19 de abril de 2013

sem título

E se você não for louco o suficiente para entrar na minha dança? E se você não for bastante esperto para perceber que é o peixe que contém o mar, que é o pássaro que contém o céu, e não o contrário? Eu compartilho contigo a minha aflição de existir. Mas não desejo que você me traga a cura. Eu te ofereço meu silêncio que, embora nada diga, é meu tudo.

terça-feira, 16 de abril de 2013

eu andava por copacabana. despretensiosamente. entrei numa galeria que se julga shopping. velharia com cisma de novo. o olho da cara. a cara do olho. o olho. só queria fazer um poema. sobre ranços. sobre mofo. sobre almas. é que velharias têm mais alma que corpo. numa vitrine, o susto. um trio de pequeninos rinocerontes, meio madeira, meio cobre. me chamaram. ficamos nos encarando. eles eram a poesia que eu buscava. eles, presos, tão delicados e ao mesmo tempo. tão. rijos. quando quis fotografá-los, quase quebraram os lustres e espelhos franceses, os azulejos italianos, os vasos chineses... quase promoveram um extermínio. fiquei foi quieto com esse "quase" irracional deles. poema dá prejuízo. imaginei o diálogo deles, à noite, com os bibelôs, o passeio nas paisagens dos finos azulejos, o desdém da áfrica com a europa de luís XIV. disse que ia buscá-los. mas eles me disseram que não sou digno deles. a poesia tem o peso deles, a couraça deles, a sua irracionalidade. religião pura. minha santíssima trindade africana.

domingo, 14 de abril de 2013

quem me falou o que é mistério nem tinha voz. quem me mostrou o mistério nem tinha olhos. quem tocou no mistério não tinha dedos e corpo e pele e ossos. quem me apresentou o mistério foi a dor disfarçada de amor. ou será que foi o contrário? mistério...

 

 
 
 

 

segunda-feira, 18 de março de 2013

o se

E se tudo não passa de uma ilusão?
Uma colorida ilusão (Não existe ilusão em preto e branco). E se tudo não é mais do que uma centelha de nada borbulhante, faiscante, subindo até se apagar no infinito?
E se o próprio infinito não passar de uma caixa de brinquedos, quadrada, de uma criança inescrupulosa que se sente Deus? E se essa criança inescrupulosa (porque vê a vida com olhos de eternidade e brincadeira)... se esse infante quer apenas se divertir às custas de todos os objetos existentes na caixa, sem se importar que eles venham a sentir o incômodo da não-decisão, da falsa liberdade, da tolhida existência?
E se estamos mesmo mergulhados num mito e a gosma existencial nos empurra cada vez mais para o fundo sem fundo, ou para as alturas, sem altura? E se eu não sou eu, nem você é mesmo você e o que vemos não é o que vemos, nem nunca foi o que vemos, nem nunca, de fato, será visto?
E se eu estiver enlouquecido com todas essas perguntas que me lançam sempre para um canto da caixa, prisioneiro? Ah, que bobagem tudo isso. O ciclo, a repetição, o movimento insessante num mesmo ponto. E o espírito da criança eterna pairando sobre o nada.
A vida é mesmo feita apenas desse "se".

sexta-feira, 8 de março de 2013

um novo credo

Creio na Deusa-Mãe, toda-poderosa, criadora do céu e da terra. E em suas filhas, nossas senhoras, que foram concebidas pelo poder da alma santa. Nasceram daquelas que um dia foram virgens, padeceram sob tantos pôncios-pilatos-machos, foram crucificadas diariamente, mortas, sepultadas, desceram à mansão dos mortos, ressuscitam todos os dias naqueles e naquelas que lembram sua memória. creio na espírita santa, na igreja que não tem templo e partido, na comunhão de quem não precisa ser canonizado porque a vida já o fez santo, na ausência de pecados, na vida além dessa pequena. amém! amem!

(meu credo, em homenagem à mulher)

sexta-feira, 1 de março de 2013

Entreouvido no céu.

O único pecado de Jesus, segundo Pedro: ter curado a sogra do pescador.

O céu virtual

O morto na porta do céu:
- Então, São Pedro, pode verificar meu facebook aí, meu twitter também, meu Instagram... pode ver que minha vida é uma internet aberta. Eu mereço o céu.
- De fato, meu filho, estou verificando seu perfil aqui e é um dos mais perfeitos seres virtuais. Você podia se candidatar a papa, sabia? Cota de santo você já tem.Vou mandar você exatamente para o lugar que você merece: um céu virtual.


 

sábado, 23 de fevereiro de 2013

sonhei um sonho sonhado.
um sonho dentro de um sonho em que me fantasiava
de sonhador inveterado. haja pleonasmo!

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

ser - estar

Eu vivo estando, não sendo. Um estado de não sei o quê. Não ser não é tão ruim.  Perceber uma demissão, estar ciente dela a cada dia, até o dia em que a glória demissional ocorrer de fato. E então não estarei mais e serei o que nunca fui.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Não acredito no Deus sério, carrancudo, que não põe riso na boca. Não acredito que o riso é de autoria do Diabo. Um brinde ao deus da alegria, seja ele quem for.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

inha

Faz tempo eu saí de uma cidadezinha. Agora, nesse  já, descubro que ela nem é mais inha. Com assombro, concluo que o inha dela era eu.

domingo, 28 de outubro de 2012

Cartomante

A cartomante pegou minha mão à força. Na rua. Eu, apressado. Ela, mais ainda. Disse com convicção: "Tua mulher anda te traindo". Eu ri um riso de alívio. Tinha encontrado mais uma ficcionista.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

nomes

Conheci, há tempos, um homem que se chamava Hilário. Ironia ou não, ele era muito carrancudo.Tem gente que demora a nascer pro nome.

clique

Clique aqui. clique acolá. Clique em cima. Clique embaixo. clique aqui do lado... Tanto clique nesse mundo virtual. Tanto atalho, encruzilhada, esconderijo, grotão. Com um clique você se trasnporta pro novo. Num clique você se esparrela e é roubado. Num clique você manda pro céu ou pro inferno virtual os indesejados. Suspeito que é num clique que o mundo há de se acabar.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Foi ontem à noite. Centro do Rio. Dois corpos. Voaram pela janela do 21 andar. Mas, cadê as asas, meu Deus?!

sábado, 20 de outubro de 2012

Trago peixes para ti. Trago também o oceano em que eles habitam. Queres mais? Que tal algas, sargaços, corais? Até conchas te dou. Mas não as abra, por favor! Deixe que elas gestem o segredo das perólas.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

o reformador

conceito. foi isso o que procurei o tempo todo. um conceito. vários até. infinitos. e eles sempre me dando rasteira, me passando a perna, me levando a precipícios. todo conceito abisma a gente. derruba nossa certeza bem no fundo do nada. "nonada". 
agora sei que ao escalar montanhas de livros e textos e perguntas só me valeu mesmo foi a escalada, só me valeu o corpo em movimento. precisamente o que sempre busquei foi certeza. o conceito me enganando. quando achava que havia chegado nele, o demônio chispava em redemoinho. fute! juque! era só a subida que importava? não o que havia lá no topo? era só o processo? 
pois então, sim. quem quiser que fique a vida toda arremedando conceito e preconceitos. comida que não enche barriga nenhuma. não procuro mais conceito algum; só o semceito, o senceito, o ceito, que é o conceito quebrado, faltando o miserável "com" que engana a gente feito o diabo. e eu que achava que o sabia muito bem cortar o pré para não formar certezas (pre-conceitos), agora sei que esse 'com' também deve ser arrenegado. só busco agora o ceito. pronto. em paz com minhas procuras.

sábado, 15 de setembro de 2012

Pensamenteiro

Eu sou um pensamenteiro. Sou mesmo. Vivo plantando sementes na cachola. Umas morrem porque não as rego ou porque as renego. Outras, a massa cinzenta acaricia, adormenta, canta cantigas de ninar para que elas durmam e deixem o maravilhoso brotar. Sou mesmo um pensamenteiro. E é por isso que o espírito não se cansa de viajar, avesso aos caprichos do corpo. Pensamenteiro. Dorme dorme, sementinha. Eu velo teu sono enquanto tu sonhas por mim. Vamos juntos florescer um dia. Homem-planta.