domingo, 5 de janeiro de 2014

fim de ano e as pessoas estão preocupadas demais com o que vestir, beber e comer na virada. Esquecem, ou nem sabem, que a "virada" deve acontecer de dentro para fora. não há cor que possa colorir um coração nublado. nenhum amarelo vai iluminar de alegria uma cabeça mesquinha. nenhum vermelho vai renovar o sangue, como vinho novo, de quem vive e chora o passado. nenhum verde vai cumular a esperança... de quem não aposta nem em si, nem no mundo. nenhuma pirotecnia poderá refulgir numa alma que, de tão pessimista, só vê a escuridão no céu noturno, nunca sonha com o fulgor e as possibilidades das constelações. para virar o ano, data mais simbólica que real (visto que o tempo não se pode medir), é preciso ficar às avessas, como roupa que se põe ao contrário para que a limpeza aconteça em profundidade. é preciso sondar o mais profundo do oceano interior, vinte mil léguas submarinas de si mesmo. e, lá, bem distante, nessa vastidão que é você mesmo, estarão todas as cores que você busca. porque não é uma virada de ano que pode tudo. é você.

domingo, 15 de dezembro de 2013

nômade

o que ameniza essa minha eterna posição de nômade é saber que qualquer terra suportará o peso de minha tosca humanidade com total indiferença. e já não sonho geografias, nem tenho apego às terras deixadas, porque nunca finquei raízes. sou para nuvens, para vento e poeira. nada me fixa num lugar porque sou propriamente o trânsito. um território é o que habito apenas: meu corpo. não traço mapas e, s...e os traçasse, eles não viriam com legenda. minha cartografia não segue qualquer rosa-dos-rumos. e quando me for para sempre, eis a certeza, passarei o meu não-tempo contemplando o planeta terra de outro ponto de vista, algum planeta de sirius, não debaixo de sete palmos. se é para ser pó, que seja pó de constelações.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

casulo

a tarde se abisma sobre os casulos que se tecem para abrigar gente. inúmeros casulos com suas capas tremulando ao vento vindo do mar. estranha sensação de gestar humanos. úteros de pedra. joões-de-barro a costurar ninhos para outros. tá vendo aquele edifício, moço? eu trabalho lá. mas ele não é para mim. casulos de uma cidade que põe sonhos num vácuo. nem toda cidade tem cacife para crisálida.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

e o que só me vem à cabeça é o que não tem forma, nem cor, nem cheiro. é o que tem corpo diáfano, nem uma canção ou voz que ecoe e tudo diz porque está em tudo, aniquilando o tempo-espaço, construindo, ele mesmo, o seu existir como potência. isso é forte demais e me esmaga tal qual o peso de duas toneladas sobre minha frágil carne. é o abismo a sua morada? não, sou eu! o que não carece de explicação para ser e é.

domingo, 3 de novembro de 2013

para cima...

para cima, mais para cima. subindo, subindo... até tocar o não tocável. o anseio do que não se vê. a vontade de fraudar o perecível. subindo, subindo... até que os dedos furem as nuvens e executem as notas mais agudas da partitura. clave de sol, de céu, de nebulosas. para cima, bem mais para cima, até que se rasgue o véu do impossível. de lá se mire a terra. debochado, o riso ecoe no vácuo porque é cisco o que parecia infindo. no diminuto é que se rege a escala do alto. para cima, mais para cima agigante-se se for capaz, suba sem medo algum. já não há quedas; todas as quedas aconteceram. todos os abismos se dilataram, os precipícios eram apenas testes. não tenha medo do alto. é por ele que nossos olhos ficam na cabeça, não nos pés. para cima, por favor!

terça-feira, 24 de setembro de 2013

do querer e não poder

querer dizer e não poder dizer é a coisa mais estranha que há. é querer caminhar e não ter pernas. é desejar abraçar uma árvore e não ter braços. mas mesmo quem não tem pernas e braços pode criam seus artifícios. enquanto quem não consegue dizer, mergulha no vácuo da linguagem. a palavra não pode tudo.
Sonhei que eu era a serpente do paraíso e tinha cobiçado a árvore do bem e do mal. Todo entendimento é um perigo. me vi nu e gostei muito daquilo.

domingo, 22 de setembro de 2013

busca

Eu procuro as frestas, lá onde há eco. O oco da existência. Aberturas. O prazer reside nos interstícios. Zona fronteiriça, bordas que dissolvem o eu e o outro. Ando à espreita das fendas, das projeções, do negativo, a câmara escura. Cave of Plato. Disformidades que, incessantemente, rezam a morfologia do estilhaço.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

árvore

Está decidido.
Na próxima encarnação serei árvore,
numa densa floresta, e não me aperceberei da existência dos homens.
Amém.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

assim eu quereria minha vida. casa sempre aberta. chama sempre acesa. mesa sempre posta. panaceia.

domingo, 2 de junho de 2013

Esse é meu sacrifício. A operação do sagrado em mim. Um abandono de mim para o abraço de algo que não entendo e que me é inacessível. E sobre mim paira uma indecidibilidade. Porque o que não entendo me sacode como um vento de uma gélida madrugada. Tremem os ossos, um por um, como se eu estivesse possuído. E cada gota de sangue, cada vértebra, cada poro é língua indecifrável. O sagrado me arrebenta nas mais simples atitudes. As mais tolas. Ao riscar um fósforo e ver a chama, é o sagrado diante de mim que se inflama. Ao ver uma folha seca caída do galho, ele, o sagrado, me diz do sacrifício. E quando respiro, esse ar que me invade é ele. Essa é minha forma de viver religiosamente. Essa desforma. Estando.

sábado, 11 de maio de 2013

outras venturas

Felizes os que não sofrem. Feliz os que não morrem. Felizes os que não se deixam enganar. Felizes os que não se humilham. Felizes os que não compactuam com a máscara da humildade. Felizes os que gargalham. Felizes os que estão com a barriga cheia. Felizes os ricos... de espírito. Felizes os que não perseguem nem são perseguidos. Quem disse que pra ganhar o céu é preciso viver no inferno?

sábado, 27 de abril de 2013

espelho

"Agora nos vemos como num espelho, mas então veremos face a face". Esse texto anda comigo há muito tempo. Como num espelho. Uma imagem de mim, que sou outro, o contrário. E por mais que eu mire, só vejo o que não sou. E por mais que eu contemple, só vejo o que nunca serei. Não sou eu que está lá; é um outro que não existe, a não ser como uma imagem. Face a face. Então, não serão dois rostos na suprema miragem? Não, é uma face ao contrário, desfocada, num lugar que não existe, o outro lado, uma impressão do aqui, mas está lá dentro do espelho. E cisma em ser mais forte do que eu. "Mas então veremos face a face".

sexta-feira, 19 de abril de 2013

sem título

E se você não for louco o suficiente para entrar na minha dança? E se você não for bastante esperto para perceber que é o peixe que contém o mar, que é o pássaro que contém o céu, e não o contrário? Eu compartilho contigo a minha aflição de existir. Mas não desejo que você me traga a cura. Eu te ofereço meu silêncio que, embora nada diga, é meu tudo.

terça-feira, 16 de abril de 2013

eu andava por copacabana. despretensiosamente. entrei numa galeria que se julga shopping. velharia com cisma de novo. o olho da cara. a cara do olho. o olho. só queria fazer um poema. sobre ranços. sobre mofo. sobre almas. é que velharias têm mais alma que corpo. numa vitrine, o susto. um trio de pequeninos rinocerontes, meio madeira, meio cobre. me chamaram. ficamos nos encarando. eles eram a poesia que eu buscava. eles, presos, tão delicados e ao mesmo tempo. tão. rijos. quando quis fotografá-los, quase quebraram os lustres e espelhos franceses, os azulejos italianos, os vasos chineses... quase promoveram um extermínio. fiquei foi quieto com esse "quase" irracional deles. poema dá prejuízo. imaginei o diálogo deles, à noite, com os bibelôs, o passeio nas paisagens dos finos azulejos, o desdém da áfrica com a europa de luís XIV. disse que ia buscá-los. mas eles me disseram que não sou digno deles. a poesia tem o peso deles, a couraça deles, a sua irracionalidade. religião pura. minha santíssima trindade africana.

domingo, 14 de abril de 2013

quem me falou o que é mistério nem tinha voz. quem me mostrou o mistério nem tinha olhos. quem tocou no mistério não tinha dedos e corpo e pele e ossos. quem me apresentou o mistério foi a dor disfarçada de amor. ou será que foi o contrário? mistério...

 

 
 
 

 

segunda-feira, 18 de março de 2013

o se

E se tudo não passa de uma ilusão?
Uma colorida ilusão (Não existe ilusão em preto e branco). E se tudo não é mais do que uma centelha de nada borbulhante, faiscante, subindo até se apagar no infinito?
E se o próprio infinito não passar de uma caixa de brinquedos, quadrada, de uma criança inescrupulosa que se sente Deus? E se essa criança inescrupulosa (porque vê a vida com olhos de eternidade e brincadeira)... se esse infante quer apenas se divertir às custas de todos os objetos existentes na caixa, sem se importar que eles venham a sentir o incômodo da não-decisão, da falsa liberdade, da tolhida existência?
E se estamos mesmo mergulhados num mito e a gosma existencial nos empurra cada vez mais para o fundo sem fundo, ou para as alturas, sem altura? E se eu não sou eu, nem você é mesmo você e o que vemos não é o que vemos, nem nunca foi o que vemos, nem nunca, de fato, será visto?
E se eu estiver enlouquecido com todas essas perguntas que me lançam sempre para um canto da caixa, prisioneiro? Ah, que bobagem tudo isso. O ciclo, a repetição, o movimento insessante num mesmo ponto. E o espírito da criança eterna pairando sobre o nada.
A vida é mesmo feita apenas desse "se".

sexta-feira, 8 de março de 2013

um novo credo

Creio na Deusa-Mãe, toda-poderosa, criadora do céu e da terra. E em suas filhas, nossas senhoras, que foram concebidas pelo poder da alma santa. Nasceram daquelas que um dia foram virgens, padeceram sob tantos pôncios-pilatos-machos, foram crucificadas diariamente, mortas, sepultadas, desceram à mansão dos mortos, ressuscitam todos os dias naqueles e naquelas que lembram sua memória. creio na espírita santa, na igreja que não tem templo e partido, na comunhão de quem não precisa ser canonizado porque a vida já o fez santo, na ausência de pecados, na vida além dessa pequena. amém! amem!

(meu credo, em homenagem à mulher)

sexta-feira, 1 de março de 2013

Entreouvido no céu.

O único pecado de Jesus, segundo Pedro: ter curado a sogra do pescador.

O céu virtual

O morto na porta do céu:
- Então, São Pedro, pode verificar meu facebook aí, meu twitter também, meu Instagram... pode ver que minha vida é uma internet aberta. Eu mereço o céu.
- De fato, meu filho, estou verificando seu perfil aqui e é um dos mais perfeitos seres virtuais. Você podia se candidatar a papa, sabia? Cota de santo você já tem.Vou mandar você exatamente para o lugar que você merece: um céu virtual.