Homem bom às portas do céu: "Enfim, descanso eterno..."
O velho Pedro, coçando a barba: "Nananinanam! você cometeu o maior dos pecados e creio que seu lugar não é aqui". "Que pecado?", quer saber o homem, certo de um equívoco. O guardião mostra o artigo 10 da constituição eterna: "Passar a vida confundindo santidade com omissão".
sexta-feira, 9 de maio de 2014
cogito
eu não estou pensando. você pensa que eu estou pensando. mas não estou pensando. eu não pensa. meu pensamento acha que pensa. então, aquela esparrela de "cogito, ergo sum" é a maior das falácias porque eu não penso. eu sou pensado e, pois, os outros - ao me pensarem - é que me criam. pronto, falei.
quinta-feira, 1 de maio de 2014
monodiálogo
- quem é você?
- eu sou você!
- não, eu sou eu e não estou aí. você é outro.
- imagina. eu sou você sendo eu. é tão simples.- quem você pensa que é pra dizer que sou eu?
- ora, já disse. sou você....
- pera, se você não é você. se você sou eu, quem sou eu?
- a questão é outra: se eu sou você, onde é que você está?
- eu estou aqui. eu sei que não estou aí.
- tem certeza de que não sou eu que estou aí?
- tenho certeza. é ela que me faz afirmar que ocupo este corpo e não este aí.
- será que não sou tua certeza?
- as minhas certezas não podem estar num outro corpo.
- já ouviu falar em física quântica, em espaços superpostos e saturados de temporalidade? já ouviu falar de virtualidades? internet? avatares? você tem certeza que está aí?
- como assim?
- o teu problema é tua certeza. mas ainda bem que sou tua dúvida. muito prazer...
- ???????????
- eu sou você!
- não, eu sou eu e não estou aí. você é outro.
- imagina. eu sou você sendo eu. é tão simples.- quem você pensa que é pra dizer que sou eu?
- ora, já disse. sou você....
- pera, se você não é você. se você sou eu, quem sou eu?
- a questão é outra: se eu sou você, onde é que você está?
- eu estou aqui. eu sei que não estou aí.
- tem certeza de que não sou eu que estou aí?
- tenho certeza. é ela que me faz afirmar que ocupo este corpo e não este aí.
- será que não sou tua certeza?
- as minhas certezas não podem estar num outro corpo.
- já ouviu falar em física quântica, em espaços superpostos e saturados de temporalidade? já ouviu falar de virtualidades? internet? avatares? você tem certeza que está aí?
- como assim?
- o teu problema é tua certeza. mas ainda bem que sou tua dúvida. muito prazer...
- ???????????
terça-feira, 22 de abril de 2014
desoração
meu deus, hoje me permita não ser. me permita não ser agora. me permita o esvaziamento do meu ser. me permita a água turva, a lama, o barro, vida uterina. e me permita não evocá-lo mais da forma que querem, e que tu não quereria, se de fato falasses. pousa sobre mim a tua finitude. permite-te também seres assim uma coisa que não permanece. sejas o bóson de rigs ou a espessura do escuro. e se eu pudesse orar, se me fosse permitido orar sem religião, sem crença, sem fundamento, a pedra angular desse credo seria o desapego de ti. porque o mundo anda cheio de clemência. e não posso crer numa divindade que só se alimenta de elogios.
segunda-feira, 17 de março de 2014
o sem...
queria escrever o sem sentido. aquilo que gruda na cachola, no juízo, sem precisar de explicação. queria construir um texto que não tivesse conceitos. conceito não se pega no grito, não se transmite no ato, não se oferece na dádiva. conceito é imagem que nunca toma forma e vigora no escorrego. estou farto de conteúdo. quero o continente. melhor: quero a filosofia do não. a desforma. estar aqui e pronto. sem ter que racionalizar o ontem e o já. coisa mais besta viver assim, dando nome e significados pra tudo.
domingo, 16 de março de 2014
a coisa
Quero uma coisa.
uma coisa bonita. uma coisa bonita e grande. uma coisa bonita, grande e sagrada. uma coisa bonita, grande, sagrada e que me deixe perplexo ao tocá-la. quero essa coisa que, tendo um corpo, continua incorpórea. essa coisa que é reservatório, cálice para vinho velho.
coisa-continente.
quero a coisa que se diga, sem tradução, sem traição, sem metáfora, crua e lisa, a lucidez do vidro, leveza de uma borboleta. quero ser para a coisa, assim como o barro para o oleiro e a azeitona para o azeite. coisa em panaceia. coisa sem nome. e se o tivesse, que fosse impronunciável. sempre em potência. à espera do ser.
coisa, coisa, coisa. três vezes grande na sua onipotência.
que ela comporte tempestades, suporte mil maremotos. e esse vinho que ela contém não se coagule jamais, ainda que o monstro que nela habite se desarvore e queira romper o fluxo. a resignação da coisa.
quinta-feira, 13 de março de 2014
casa
eu volto sempre pra casa. mesmo quando casa já não tenho. eu volto sempre pra casa. mesmo quando a vida fez de mim um errante sem retorno. eu volto sempre pra casa. mesmo quando há um abismo sem ponte no caminho. eu volto sempre pra casa. mesmo quando a neblina cai sólida e instransponível. eu volto sempre pra casa. mesmo quando meu barco resvala para o naufrágio. eu volto sempre pra casa. mesmo quando eu já nem sei quem sou e, portanto, não tenho paradeiro de mim. eu volto sempre pra casa. mesmo quando intuo que o mapa da minha rota nunca foi definido e que essa casa só existe quando eu nego qualquer lugar. minha casa é um estar-aí. a própria impossibilidade do morar.
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
in-diretas
Não me defina. Não sou um conceito.
Não me rotule. Eu não ostento carimbo
ou etiqueta na minha testa.
Não me interprete. As páginas do meu livro nunca se fixam.
Não brinque comigo. Não sou objeto de sua palavra
Mas sujeito de minha história.
Não busque certezas sobre mim. Eu nunca estarei terminado.
Não fale nem decida por mim. Nem eu me represento.
Minha vida não é resposta para ninguém.
Eu sou apenas uma questão.
Não me rotule. Eu não ostento carimbo
ou etiqueta na minha testa.
Não me interprete. As páginas do meu livro nunca se fixam.
Não brinque comigo. Não sou objeto de sua palavra
Mas sujeito de minha história.
Não busque certezas sobre mim. Eu nunca estarei terminado.
Não fale nem decida por mim. Nem eu me represento.
Minha vida não é resposta para ninguém.
Eu sou apenas uma questão.
sábado, 8 de fevereiro de 2014
tem dias...
tem dias que você não é, não está, não se sabe. só existe o vácuo. nem mundo, nem cores, nem cheiros; nada que ajude a suportar o peso do real existe. o real é uma gosma que só aparenta ser leve, mas nos sacode com a violência de mil tornados. peso de todos os tempos reunidos numa esfera de chumbo. e aí é preciso dizer, gritar mesmo, bramir: "vida, acaso sou teu escravo?"
domingo, 5 de janeiro de 2014
fim de ano e as pessoas estão preocupadas demais com o que vestir, beber e comer na virada. Esquecem, ou nem sabem, que a "virada" deve acontecer de dentro para fora. não há cor que possa colorir um coração nublado. nenhum amarelo vai iluminar de alegria uma cabeça mesquinha. nenhum vermelho vai renovar o sangue, como vinho novo, de quem vive e chora o passado. nenhum verde vai cumular a esperança... de quem não aposta nem em si, nem no mundo. nenhuma pirotecnia poderá refulgir numa alma que, de tão pessimista, só vê a escuridão no céu noturno, nunca sonha com o fulgor e as possibilidades das constelações. para virar o ano, data mais simbólica que real (visto que o tempo não se pode medir), é preciso ficar às avessas, como roupa que se põe ao contrário para que a limpeza aconteça em profundidade. é preciso sondar o mais profundo do oceano interior, vinte mil léguas submarinas de si mesmo. e, lá, bem distante, nessa vastidão que é você mesmo, estarão todas as cores que você busca. porque não é uma virada de ano que pode tudo. é você.
domingo, 15 de dezembro de 2013
nômade
o que ameniza essa minha eterna posição de nômade é saber que qualquer terra suportará o peso de minha tosca humanidade com total indiferença. e já não sonho geografias, nem tenho apego às terras deixadas, porque nunca finquei raízes. sou para nuvens, para vento e poeira. nada me fixa num lugar porque sou propriamente o trânsito. um território é o que habito apenas: meu corpo. não traço mapas e, s...e os traçasse, eles não viriam com legenda. minha cartografia não segue qualquer rosa-dos-rumos. e quando me for para sempre, eis a certeza, passarei o meu não-tempo contemplando o planeta terra de outro ponto de vista, algum planeta de sirius, não debaixo de sete palmos. se é para ser pó, que seja pó de constelações.
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
casulo
a tarde se abisma sobre os casulos que se tecem para abrigar gente. inúmeros casulos com suas capas tremulando ao vento vindo do mar. estranha sensação de gestar humanos. úteros de pedra. joões-de-barro a costurar ninhos para outros. tá vendo aquele edifício, moço? eu trabalho lá. mas ele não é para mim. casulos de uma cidade que põe sonhos num vácuo. nem toda cidade tem cacife para crisálida.
terça-feira, 26 de novembro de 2013
e o que só me vem à cabeça é o que não tem forma, nem cor, nem cheiro. é o que tem corpo diáfano, nem uma canção ou voz que ecoe e tudo diz porque está em tudo, aniquilando o tempo-espaço, construindo, ele mesmo, o seu existir como potência. isso é forte demais e me esmaga tal qual o peso de duas toneladas sobre minha frágil carne. é o abismo a sua morada? não, sou eu! o que não carece de explicação para ser e é.
domingo, 3 de novembro de 2013
para cima...
para cima, mais para cima. subindo, subindo... até tocar o não tocável. o anseio do que não se vê. a vontade de fraudar o perecível. subindo, subindo... até que os dedos furem as nuvens e executem as notas mais agudas da partitura. clave de sol, de céu, de nebulosas. para cima, bem mais para cima, até que se rasgue o véu do impossível. de lá se mire a terra. debochado, o riso ecoe no vácuo porque é cisco o que parecia infindo. no diminuto é que se rege a escala do alto. para cima, mais para cima agigante-se se for capaz, suba sem medo algum. já não há quedas; todas as quedas aconteceram. todos os abismos se dilataram, os precipícios eram apenas testes. não tenha medo do alto. é por ele que nossos olhos ficam na cabeça, não nos pés. para cima, por favor!
terça-feira, 24 de setembro de 2013
do querer e não poder
querer dizer e não poder dizer é a coisa mais estranha que há. é querer caminhar e não ter pernas. é desejar abraçar uma árvore e não ter braços. mas mesmo quem não tem pernas e braços pode criam seus artifícios. enquanto quem não consegue dizer, mergulha no vácuo da linguagem. a palavra não pode tudo.
domingo, 22 de setembro de 2013
busca
Eu procuro as frestas, lá onde há eco. O oco da existência. Aberturas. O prazer reside nos interstícios. Zona fronteiriça, bordas que dissolvem o eu e o outro. Ando à espreita das fendas, das projeções, do negativo, a câmara escura. Cave of Plato. Disformidades que, incessantemente, rezam a morfologia do estilhaço.
terça-feira, 17 de setembro de 2013
árvore
Está decidido.
Na próxima encarnação serei árvore,
numa densa floresta, e não me aperceberei da existência dos homens.
Amém.
Na próxima encarnação serei árvore,
numa densa floresta, e não me aperceberei da existência dos homens.
Amém.
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