sábado, 4 de abril de 2009

Milagre das amendoeiras


O menino caminha pelas ruas da cidade. A mãe o segura pela mão.
- Droga, não sei por que não cortam essas amendoeiras. Todo ano a mesma coisa.
- O que, mãe?
- Essas folhas pelo chão... uma sujeira só.
- Eu acho legal. Parece um tapete vermelho. Daqueles de rei. Abram caminho para a majestade e a rainha-mãe!
- Não vejo graça nisso. Podiam ter plantado ficus, faz sombra melhor e não suja tudo.
- Ué, mas aí não tinha graça, mãe. Amendoeira é relógio. Diz o tempo pra gente.
- Eu heim, lá vem você.
- É sim, mãe. Ela diz que o inverno acabou. Diz também que tudo o que morre pode viver de novo.
- Como assim?
- Não vê que numa parte do ano as amendoeiras ficam verdinhas? O verde vai escurecendo... até que as folhas ficam amarelas, ficam vermelhas... caem. A árvore fica só o esqueleto. E depois, começa tudo de novo. Só pode ser o relógio das quatro estações.
- Você vê cada coisa...
- Não, mãe, são as coisas que vêem a gente.
- Você vê brincadeira em tudo, né? Olha só essa sujeira...
- Criança não foi feita pra brincar? A senhora mesmo é quem fala.
- É, eu gostava de brincar... Quando era criança. Agora estou bem grandinha.
- Mãe, por que quando a gente fica grande deixa de brincar?
A mãe olha o filho com ternura:
- Pensando bem, acho que esse chão ficou melhor assim, com esse tapete vermelho.
Os dois passaram pelo tapete vermelho, como compete a um rei e sua rainha.

2 comentários:

Andreia disse...

Oi Claudio, lindo texto como sempre!
É uma pena que quando crescemos deixamos morrer a criança que existe em nós, veriámos o mundo bem mais colorido, sem aspereza e a dor seria bem mais amena. O mundo aos olhos de uma criança é só pureza e amor.
Bjsss e uma ótima semana para você.

b disse...

Isso está lindo!
Coincidentemente, estou em frente a uma amendoeira enorme em altura e frondosa demais prá outono.
Admiro apenas.
Como vc diz, as coisas é que vêem a gente.