sábado, 2 de julho de 2011

Alado Desejo

Tenho sido visitado por pássaros. Começou assim...

Numa dessas tardes em que eu havia me deitado para um cochilo daqueles que nos convocam para lubrificarmos as peças do relógio mental, ouvi um barulho como que hélices de um pesado helicóptero. Estava sonhando que a aeronave pousava sobre mim. Abri os olhos, aflito. Flutuando sobre minha cabeça, há um metro, um beija-flor. Os sonhos engrandecem os sentidos, não é? Aquela ave ruflava suas asas sobre mim, imóvel no ar. Ficou ali como um mensageiro. Se eu fosse supersticioso, logo me pegaria imaginando que recado ele me traria. Foi embora pela fresta da janela.

Desde então, a qualquer hora do dia, eles aparecem, pela sala ou pelo banheiro, cruzam em diagonal o meu quarto e procuram a primeira janela entreaberta para evadirem-se. Outras vezes, flutuam um pouco no centro do quarto ou pousam sobre a cortina, ficam um pouco e partem. Serão os mesmos pássaros? É o mesmo beija-flor e o mesmo sebinho? Ou são inúmeros pássaros disfarçados querendo saber deste humano? Continuo no computador, fazendo minhas coisas, ou lendo um livro, preprando aulas... Eles se vão. Entretanto, parece que estão levando um pouco de mim a cada visita. Sim, um pouco de mim quer e vai com esses pássaros ladrões. Pássaros libertinos. Sinto que é minha alma que eles levam, um pouco, a cada visita. E é por isso que os entardeceres estão desabando sobre mim de outras formas. Me debruço na janela, contemplo as árvores do outro lado, na rua de subida. Um pequeno bosque. Na certa os pássaros vivem ali.

Que quero eu a investigá-los à distância? Que quero eu com os pedacinhos de minha alma que se foram? Que quero eu se esses pedacinhos anseiam por aprender a gramática das aves, a sintaxe do voo e a morfologia do canto perfeito? Que quero eu do que não é mais meu, do que, talvez, nunca fora meu?

3 comentários:

Maria Bessa disse...

Meu Deus que comparação mais idêntica, e linda: a hélice de um helicóptero...kkk é a mais pura verdade, os beija-flores são leves feito plumas mas o barulho de suas asas pesam como pedras... lindo texto, o homem do cochilo kkk

Letícia Palmeira disse...

É complemento de algo que escrevi. Perfeita sincronia, Cláudio.

"Que quero eu a investigá-los à distância? Que quero eu com os pedacinhos de minha alma que se foram? Que quero eu se esses pedacinhos anseiam por aprender a gramática das aves, a sintaxe do voo e a morfologia do canto perfeito? Que quero eu do que não é mais meu, do que, talvez, nunca fora meu?"

A resposta é sempre a mais fácil de entender. Aceitar já são outros 500.

E dizem que pássaros dentro de casa é tudo prenúncio de algo bom.

Beijo.

Pastelaria disse...

Olá Cláudio
Antes de mais ...parabéns pelo blogue ! :)

gostei do que li ...

Gostaríamos muito que desse uma vista de olhos no projecto DVB- Digital Video Book ,de saber a sua opinião e qual o interesse em desenvolver o seu trabalho neste novo formato.

"Transformamos" os seus trabalhos (já editados em livro, ou não), num DVB- uma ideia original da Pastelaria Studios Productions

O projecto é recente, é uma inovação, tal como explicamos no nosso blogue:

http://pastelariaestudios.blogspot.com/


É exactamente isso! os seus poemas seriam " trabalhados " em DVB . Um livro que se vê como um filme!


Não se trata do mesmo funcionamento de uma editora "normal", pois não somos uma editora e prestamos essencialmente um serviço criativo.

A minha sugestão seria, enviar-nos a sua obra, e nós faremos uma análise e um orçamento de custos.

Posso adiantar que, por ser um projecto novo e, embora o trabalho criativo (audio, voz, imagem, construção do DVB, etc) seja bastante, queremos chegar ao maior número de autores de obras escritas, mesmo que essas estejam ainda na 'gaveta' ...



Fico a aguardar uma resposta e, qualquer dúvida ...estamos por aqui.

Um abraço,

pastelariaestudios@gmail.com