quarta-feira, 12 de outubro de 2011

sobre asas e sonhos

Eu peço ao vento: "vento, me leva, já que não me deram o tesouro das asas". E o vento me esnoba e passa uivando. Eu peço à árvore: "Árvore, me enraiza, já que não me deram o poder de ser caule, galho, fruto, flor". E a árvore cala, silêncio profundo, enraizado. Eu peço à água: "Água, me torna espuma, já que não me deram o dom da transparência". E a água apenas me lava e desce, tingida de mim.
Uma ventania rugiu na minha janela durante a madrugada e, com mãos cíclicas quase quebrou a vidraça. Uivos lancinantes ecoavam amedrontando as árvores. As estrelas sumiram num instante sob um toldo cinzento. Acordei todo nublado.
Minha casa anda tomada por seres alados. Há muito tempo é assim. Eles vêm não sei de onde, entram pela varanda e voam labirinticamente pelos cômodos. Às vezes, pousam nas frisas da janela e ficam ali, observando o que os humanos fazemos. Sinto que eles nos olham com uma certa piedade e admiração. Piedade porque, grandes que somos, nos tornamos pequenos na ausência de asas. Fiquem aí, camaradinhas, e me emprestem suas asas para o meu sonho.
Amanhã eu renovo meu compromisso de ser a eterna criança. Ainda que o mundo não queira. Ainda que minha casca negue tudo. Ainda que o meu faro para coisas libertas esteja enferrujado. Ainda que tudo conspire para a negação... Eu renovo minhas promessas com a eterna criança. amém.
 

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