sobre asas e sonhos
Eu
peço ao vento: "vento, me leva, já que não me deram o tesouro das
asas". E o vento me esnoba e passa uivando. Eu peço à árvore: "Árvore, me
enraiza, já que não me deram o poder de ser caule, galho, fruto, flor". E
a árvore cala, silêncio profundo, enraizado. Eu peço à água: "Água, me torna
espuma, já que não me deram o dom da transparência". E a água apenas me
lava e desce, tingida de mim.
Uma
ventania rugiu na minha janela durante a madrugada e, com mãos cíclicas
quase quebrou a vidraça. Uivos lancinantes ecoavam amedrontando as
árvores. As estrelas sumiram num instante sob um toldo cinzento. Acordei
todo nublado.
Minha
casa anda tomada por seres alados. Há muito tempo é assim. Eles vêm não
sei de onde, entram pela varanda e voam labirinticamente pelos cômodos.
Às vezes, pousam nas frisas da janela e ficam ali, observando o que os
humanos fazemos. Sinto que eles nos olham com uma certa piedade e
admiração. Piedade porque, grandes que somos, nos tornamos pequenos na
ausência de asas. Fiquem aí, camaradinhas, e me emprestem suas asas para
o meu sonho.
Amanhã
eu renovo meu compromisso de ser a eterna criança. Ainda que o mundo
não queira. Ainda que minha casca negue tudo. Ainda que o meu faro para
coisas libertas esteja enferrujado. Ainda que tudo conspire para a
negação... Eu renovo minhas promessas com a eterna criança. amém.
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