sexta-feira, 12 de março de 2010

No rio de Chronos

Roda de leitura. Todo mês acontece. Cada aluno lê um livro e conta detalhes. Na última sessão, uma aluna disparou:  "Professor, da próxima vez não vou mais escolher crônicas para ler, porque elas não tem final, e fico perdida, com a sensação de algo inacabado. Vou escolher uma história com começo, meio e fim, pronto!".
Mas então o que é uma crônica? Que tipo de gênero é esse que desperta fascínio por ser um texto pequeno e ao mesmo tempo repulsa, por não ter uma linearidade? Para que então homenagearam o deus Chronos com esse gênero tão obscuro? Todo texto tem começo, meio e fim, sim, mas na crônica, a narrativa pode simplesmente ser jogada por aí, ao vento, e, do mesmo jeito, terminar. Por isso, fatos do cotidiano, tão insignificantes por vezes, servem como matéria prima para o cronista. O cronista é aquele que espreita a pequenez do momento e torna tudo grande. Não é a flor que interessa a ele, mas o espinho; não é a chuva que ele focaliza, mas a gota de um quase imperceptível orvalho; não é o sol que ele adora no texto, mas um raio pálido, coado de uma fresta do telhado... Não são as atitudes e sentimentos mais visíveis, e sim tudo o que possa não ser notado. O obscuro iluminando. O escuro lúcido.
Aquela aluna descobriu, na sua irritação com a crônica, a essência desse ato: cronicar é trazer às vistas do homem as coisas mais ínfimas e cobrar dele a percepção de ver além delas. É dar o anzol e o rio esperando que o leitor pesque os melhores peixes com a leitura.

4 comentários:

Ana Tapadas disse...

Colega:
Só posso aplaudir este post!
bjs

Gerana Damulakis disse...

Já me envolvi muito com a crônica, no sentido do quanto analisei e estudei este gênero genuinamente brasileiro, distinto do artigo americano dos jornais.
A crônica, comprometida com o tempo (o Cronos), narrava o cotidiano, pincelava acontecimentos etc. Mas, seja o grande Rubem Braga, que derramou poesia nas frases sobre ocorrências, seja Drummond com sua "versiprosa", e outros mais, foram contribuindo para que a crônica dissesse no seu espaço o que ali coubesse: a crônica é democrática.

Renata Luciana disse...

o olhar. Agiganta-se nos detalhes. Foco. Que faz transparecer os poros. Infinitas sensações.

o que tú escreves sempre me transporta, me faz sentir.

Janaina Amado disse...

Gostei, Cláudio. Como gosto das crônicas que nos deixam, como à menina, com cara de ponto de interrogação.
Em breve vou lhe escrever um e-mail, quero trocar idéias sobre um assunto, viu?